sábado, 6 de fevereiro de 2010

'Se calor fosse bom o inferno seria gelado.'

Débora

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Em Busca da Memória


Meu fim de semana foi prejudicado por causa de uma indisposição intestinal que começou no sábado à tarde, mas, como bônus, terminei o livro "Em Busca da Memória" de Eric R. Kandel. O livro é uma biografia do pesquisador austríaco, radicado nos EUA, mesclada com as descrições e reflexões acerca das descobertas e dúvidas em neurociência nos últimos cinquenta anos. De origem judaica, Eric Kandel fugiu com sua família da Austria, na época da segunda guerra mundial. Desse período, o autor guarda uma grande mágoa pela forma como a inteligência austríaca da época foi dizimada, em grande parte pela perseguição aos judeus. Nos EUA, país em que foi acolhido, seguiu o caminho inicial das ciências sociais e posteriormente ingressou na faculdade de medicina, entusiasmado pelas ideias da nascente psicanálise. A sua vida acadêmica e pessoal tomou um outro rumo a partir da necessidade de compreender os conceitos psicanalíticos sob a ótica experimental. Foi laureado com o prêmio Nobel após desenvolver uma carreira científica brilhante em que documentou os mecanismos bioquímicos e genéticos da memória, partindo de um modelo neural do invertebrado Aplysia (um tipo de lesma).
O ponto de partida na pesquisa com a Aplysia foi o estudo dos behavioristas com os condicionamentos animais. Kandel foi capaz de reproduzir as mesmas respostas no nível celular, ao trabalhar com modelos reducionistas de um neurônio sensorial e outro motor. A estimulação elétrica do neurônio sensorial se correlacionava com os mesmos padrões de condicionamento. No caso da memória de curto prazo, havia a liberação de neurotransmissores secundariamente à estimulação. Além disso, no que se refere à memória de longo prazo, um terceiro neurônio modulatório participava do processo, que no final levava à síntese de proteínas para formação de novas sinapses do neurônio sensorial com o neurônio motor. Isto é, o aprendizado e consequente acúmulo de conhecimento está associado à formação de novas sinapses. Tão notável quanto, foi descobrir que a regulação da síntese de proteínas envolvida na formação destas sinapses é feita de forma genética, isto é alguns genes são ativados com esta finalidade.
Foi um grande prazer ler este livro, passear pela história da neurociência da segunda metade do século passado e atualizar-se sobre o papel dos austríacos no período nazista. Grande parte do livro é recheada de conceitos bioquímicos, que me lembravam os livros e apostilas do meu ciclo básico na faculdade. No entanto, contados de forma encantadora e ligados aos acontecimentos da época, aquele conteúdo "chato" torna-se instigador pelas palavras de uma pessoa com uma grande visão. De forma contrastante, lembro-me de um professor de bioquímica renal, que gastava umas quatro ou cinco horas para dar a sua aula. Era um monólogo entediante, cheio de pitacos históricos como faz Eric Kandel, mas contados de uma forma desinteressante. O sujeito era aquele cara todo certinho e engomadinho (desses que abotoam a camisa até o último botão) e que perfilava diversos copos de água em cima da mesa. A cada uma hora ele tomava um copo e dessa maneira, os alunos podiam estimar a duração da aula...
Este livro vale para apontar os caminhos que devem ser trilhados pela neurologia e psiquiatria a partir de agora. Os conhecimentos que estão aparecendo estreitam cada vez mais os laços que unem biologia clássica e as ciências que estudam o comportamento. Uma coisa pouco provável quando comecei a ler sobre psicoterapias há mais de 20 anos.
Ótima leitura para o pessoal que lida com ciências biológicas, médicos e afins. O leigo de outras áreas talvez ache um pouco difícil a compreensão de certos capitulos, mas eles estão bem "mastigados" na medida do possível. No entanto, este livro é importante pelo que ele aponta para o futuro.

Roberto Mogami

domingo, 31 de janeiro de 2010

Poética I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
-Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

Débora

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cirque du Soleil em Montreal

O Cirque du Soleil está no Rio de Janeiro com "Quidam", mas não pretendo ver esse espetáculo, pois o achei muito chato pelo DVD. Entretanto, coloco um relato antigo sobre a primeira vez que assisti a um evento do Cirque:

Estava em Montreal em maio do ano passado (2005). Não havia dado sorte com o tempo, pois chovia e fazia frio, pelo menos era frio para um habitante mortal dos trópicos, como eu. Aquele dia havia sido dedicado a uma visita ao Complexo Olímpico e ao Jardim Botânico. Fiquei estupefato com os variados ambientes que encontrei no Jardim Botânico, a maneira como foram reproduzidos, com detalhes e uma preocupação de mimetizar com fidedignidade cada canto do mundo (Jardim chinês, japonês etc). Estava de olho na hora, pois a noite seria dedicada a um dos pontos altos da viagem: o Cirque du Soleil. Sim, o Cirque em sua terra natal: Montreal.

Quando fiz as reservas dos ingressos no Brasil, a imagem que tinha do Cirque era a do espetáculo que via no Fantástico. Aliás, as poucas informações que tinha, eu sabia dali. Eu não fazia idéia da dimensão e importância daqueles espetáculos e como tudo ocorria nos bastidores para ser apresentado daquela maneira.

O acesso até a área do circo fiz de metrô. Não ficava exatamente perto da estação, mas era o meio de transporte mais prático. Em Montreal - e imagino que aconteça em toda província de Quebec - o francês predomina como língua falada. Pedi informações a uma senhora sobre a localização do Cirque, em inglês. Surpreendeu-me a dificuldade que ela encontrava para se expressar em inglês! Depois percebi que isso acontecia em várias partes de Montreal. Algumas pessoas se comunicavam de uma forma desconfortável em inglês. Vencida essa etapa, cheguei à bilheteria bem cedo para trocar meus ingressos. Incrível, não havia filas enormes ou uma movimentação intensa na entrada. Caso quisesse, poderia ter comprado o ingresso na hora, que provavelmente o acharia. Fiquei pensando “Vão existir lugares sobrando na platéia”. Após a entrada na área física do Cirque, fui encaminhado para uma tenda enorme, que fazia o papel de um saguão onde o povo se aglomerava antes do espetáculo e também para onde ia no intervalo da apresentação. Havia uma lanchonete com todas aquelas besteiras que os americanos e canadenses gostam (doces, balas, refrigerantes, “hot-dogs” etc), além da venda de lembranças do Cirque (CDs, DVDs, camisetas etc). Chovia muito naquele momento e a aglomeração ia aumentando, mesmo com o tempo horrível que fazia. Autorizada a entrada para a tenda principal, fiquei impressionado com o tamanho do espaço físico e a organização do local. Nem parecia que tudo aquilo era montado e desmontado de tempos em tempos nos espetáculos itinerantes como aquele. Aliás, era a estréia mundial de “Corteo”. Tive muita sorte mesmo, pois visitei a casa do Cirque, Montreal, justamente na época em que começava um espetáculo inédito. Dali eles iriam excursionar por outras cidades canadenses e americanas. Mas, voltando às impressões daquele dia, tudo era novidade para mim: uma orquestra posicionada na frente do palco, palhaços que funcionavam como pessoal de apoio colocados no alto de grandes torres e o público que enchia cada vez mais a tenda. “De onde saiu tanta gente?”, pensei comigo mesmo. E, para minha surpresa, não sobrou uma única cadeira vazia antes do espetáculo começar. Mas, após começar..foram momentos de magia que apresentaram. É difícil definir o Cirque du Soleil, pois é uma mistura de dança, acrobacias, teatro, música de alta qualidade, comédia, figurinos fantásticos...A única coisa certa é a história com começo, meio e fim. A forma como ela é transposta para o palco é a mais criativa possível. O ritmo é intenso quase o tempo inteiro e existe um intervalo no meio do espetáculo para descansar a mente do bombardeio de cores, balançar de corpos, revezamento de equipamentos e música de muito bom gosto.

Terminada a apresentação, para variar, tudo ocorreu na mais perfeita ordem como em todos os lugares do Canadá. Sem tumultos, todo mundo saindo com educação e seguindo de forma ordeira para suas casas. No meu caso, para a estação de metrô mais próxima, que, aliás, não era tão próxima assim. Cheguei ao hotel cansado pela programação que tive durante o dia, mas extasiado com o que assiti. Agora sim, fazia alguma idéia do que era o Cirque du Soleil. E me tornei mais um fã deste empreendimento mágico.

Postado em 1/6/2006 por Roberto Mogami

Breve História do Mito


Um dos melhores livros que li este ano. Karen Armstrong disserta sobre a importância da existência dos mitos na sociedade. A função que eles têm como mediadores dos questionamentos humanos sobre sua existência. Através de exemplos muito interessantes, a autora mostra como os diversos mitos cumprem um papel importante no funcionamento da psique humana e critica a sociedade contemporânea pela subvalorização de práticas que eram cruciais para nossos ancestrais.


Com um dos mitos tive uma identificação: a capacidade de voar. Voar representaria a transcendência, a possibilidade de tocar o divino, de ascender aos céus, a um plano superior de existência. Lembro-me claramente de um sonho recente – e que me parecia incompreensível – em que estava voando e era dotado de poderes sobrenaturais. A sensação que esse sonho me trazia era extrememamente prazerosa, assim como são as experiências advindas da vivência desse mito de uma forma geral.


Outro mito interessante e que comentei na entrada anterior do blog é sobre o herói. A função do mito do herói em nossas vidas. A analogia entre o caminho difícil para se tornar um herói e os ritos de passagem, como aqueles de civilizações antigas em que o adolescente é privado do seu dia-a-dia normal e confrontado com experiências assustadoras que o fazem ressurgir como um novo homem, uma pessoa amadurecida que tem um papel novo e importante na sociedade.


Esse mito do herói me faz reviver um pouco a minha vida recente em que, através do esporte, pude conhecer meus limites, fui capaz de me reconhecer como ser humano vencedor, por meio dos sacrifícios que atividade física me impunha para alcançar um objetivo determinado. O prêmio era cruzar a linha de chegada e ter a sensação de realização, de sucesso, de provar a si mesmo que era um herói e capaz de atingir patamar novo de entendimento da realidade.


O advento das grandes civilizações e conseqüentemente das cidades, de uma certa forma, afasta o homem dos deuses e isso é representado, por exemplo, na história de Gilgamesh. Outros mitos, como o do dilúvio, representam o infindável reciclar, reconstruir característico das cidades antigas, notadamente da região mesopotâmica, local que sofria com inundações constantes.

A última parte do livro é uma crítica ao mundo contemporâneo. Destaca o progresso da sociedade ocidental pela incorporação das conquistas advindas da revolução tecnológica e a conseqüente ênfase excessiva no logos (razão). Paralelamente, houve uma depreciação da importância dos mitos na vida do homem. Tudo que não pudesse ter uma explicação lógica era considerado como histórias de mentes primitivas. Portanto, produziu-se um vazio na psiquê humana que é parcialmente preenchido pelas artes: os livros e as artes plásticas, por exemplo. Através de elementos ficcionais, elaboram-se as situações que antigamente eram discutidas pelos mitos. A autora também faz um crítica bastante lúcida à distorção dos mitos modernos - as estrelas pop, por exemplo - que são objetos de pura idolatria ou contemplação passiva e não cumprem o papel mítico dos heróis: servir como um modelo, uma referência.

Postagem de 17/8/2008 por Roberto Mogami